O futuro parecia melhor, por *Ascânio Seleme

*Ascânio Seleme, colunista do GLOBO

11/01/2018 0:00

Utopia deu espaço à mentira e à manipulação da informação. Os agentes daquela transformação, sobretudo Facebook e Google, são agora enormes corporações

Proponho fazer uma pequena volta ao passado para discutir o futuro. Suponham que estamos em meados dos anos 90, a internet floresce e abre possibilidades jamais sonhadas pelo homem. Descobrimos que com alguns cliques poderíamos entrar no Louvre e ver suas 35 mil obras de arte.

Ou acessaríamos a Biblioteca do Congresso dos EUA para ler qualquer um dos mais de cem milhões de livros guardados a milhares de quilômetros de distância. Como a humanidade poderia crescer, prosperar e se engrandecer com esse engenho maravilhoso. Teríamos em pouco tempo o mundo em nossas mãos.

Como de fato viemos a ter. E esse é um ganho inquestionável para a humanidade. Pouco mais de dez anos depois, outra maravilha desenhada para aproximar as pessoas irrompeu em nossas vidas. Google e Facebook, e logo em seguida as demais redes sociais, transformaram a comunicação entre nós.

De uma hora para a outra, todos viramos protagonistas. Desapareceram os coadjuvantes, e a história passou a ser contada por cada um. Nascia o herói de si mesmo. Vislumbramos as incontáveis possibilidades que se abriam, e não apenas para as relações sociais.

Na arte e no jornalismo, as pessoas podiam produzir, editar e distribuir eletronicamente seus livros, discos, filmes e jornais. Começava a era de desintermediação entre o produtor de conteúdo e o consumidor. Que bênção para a democracia.

Em seguida, com os smartphones, além da rapidez na distribuição de conteúdo e na troca de informações, adquirimos portabilidade. Todo este mundo maravilhoso passou a caber na palma das nossas mãos.

Com o uso das redes sociais no celular se fez a Primavera Árabe que derrubou, entre outros, o ditador Hosni Mubarak, no Egito, e se produziu uma revolta na Ucrânia.

Nos EUA, um candidato negro fez sua campanha usando as redes por onde difundiu suas ideias, distribuiu suas propostas de governo, arrecadou recursos e ganhou a eleição presidencial. Nesses episódios deu-se a desintermediação política.

As duas revoluções foram populares, e Obama, apesar de obviamente não abrir mão do establishment partidário, pavimentou sua candidatura com o uso das redes. Que maravilhosa utopia.

Pouco depois, contudo, a Primavera Árabe deu lugar a outra ditadura no Egito, e a Ucrânia foi parcialmente ocupada pela Rússia.

E ocorreu o que ninguém supunha possível: um presidente dos EUA foi eleito com a ajuda de uma potência estrangeira que manipulou as redes sociais.

Sim, a vontade popular podia ser manipulada e é facilmente manipulada pelas redes. Hoje, a utopia deu espaço à mentira e à manipulação da informação.

Os agentes daquela transformação, sobretudo Facebook e Google, são agora enormes corporações, passaram a ocupar cada vez mais espaço na economia formal e abandonaram seus ideais transformadores e democráticos.

E as redes se transformaram na fonte primária de informação da maioria das pessoas. E em muitos casos, na única fonte de informação.

A força destes gigantes colocou a indústria da informação formal e da produção de conteúdo independente, o jornalismo profissional, à beira do colapso.

Como as pessoas estão desinteressadas e cada vez mais só leem aquilo que cai nas suas timelines, o financiamento para a produção de conteúdo plural e equilibrado diminui, e o resultado pode ser o fim do jornalismo como o conhecemos.

Produção de jornalismo de qualidade custa muito caro e só sobreviverá com o dinheiro do consumidor.

A publicidade migrou há muito tempo, justamente para Google e Facebook. A edição jornalística é substituída pelo império do algoritmo. As pessoas precisam querer estar bem informadas.

A alternativa é viver no mundo de Trump, Kim Jong-un, Putin e Erdogan sem a vigilância permanente e dura do jornalismo. Num planeta de Turquias, Coreias do Norte e Rússias. Ou imaginem o Brasil de Temer, Lula e Bolsonaro sem a fiscalização diuturna da imprensa.

Seríamos uma grande Venezuela ou uma imensa Filipinas.

O escritor moçambicano Mia Couto, a propósito dos 30 anos da independência de seu país, indagou se no passado o futuro era melhor. Não posso responder sobre Moçambique, mas no caso das redes sociais, o futuro visto do passado era com certeza mesmo muito melhor.

*Ascânio Seleme é jornalista