O tesouro somos nós, por Ascânio Seleme

*ASCÂNIO SELEME -O Globo

O Foi Margaret Thatcher quem disse que não existe essa coisa chamada dinheiro público, o que existe é dinheiro arrecadado do bolso dos contribuintes

31/05/18 - 00h00

A Petrobras perdeu mais de uma centena de bilhões de reais em valor de mercado ao não negociar o preço do óleo diesel, ignorando inúmeros sinais de estresse financeiro de um dos seus melhores clientes, os caminhoneiros, responsáveis por 70% do consumo. Afinal, que importância têm os clientes se a empresa estava agindo de modo eficiente, exatamente como manda o mercado, protegendo os interesses de seus acionistas? Os mesmos que agora micam com a desvalorização espetacular de suas ações.

O principal acionista da Petrobras, o que mais perdeu dinheiro com a eficiente gestão na empresa, atende pelo nome de Brasil. Fomos nós, leitor, eu e você, que ficamos com o mico. Sairá de nossa poupança mais da metade deste rombo bilionário. Mas isso não incomoda todo mundo. Muita gente que entende de economia e mercado aplaude a Petrobras e diz que ela apenas cumpriu sua obrigação. Aumentar os combustíveis 229 vezes em dois anos foi razoável, dizem os especialistas.

É verdade que a gestão da empresa foi boa, que a tirou do buraco gigante aberto pela administração anterior. Difícil é explicar como a colocou de volta lá. Como a Petrobras não viu o colapso que se avizinhava? Não foi por falta de sinais. O colunista José Casado mostrou na sua coluna de terça passada que oito avisos foram dados por caminhoneiros e transportadoras ao governo desde outubro de 2014. Só não viu quem não quis. E a Petrobras, que é governo, ficou cega e surda diante da agonia de seus clientes.

Qualquer outra empresa negociaria o quanto fosse necessário para evitar perda desse tamanho. Os especialistas dizem que a Petrobras não percebera que a coisa ficaria tão feia. Pode ser, apesar dos avisos repetidos de que a situação era de desespero do outro lado do balcão, pode ser. Mas, mesmo não enxergando muito longe, era claro que acordos prévios evitariam que a situação de penúria dos clientes chegasse ao ponto de ebulição. Um acerto de preços era recomendável até mesmo como forma de manter os clientes vivos, e consumindo.

As perdas geradas pela imprevidência da Petrobras ainda estão sendo contabilizadas pelos demais setores da economia atingidos com a paralisação do país. Passa dos R$ 32 bilhões o volume de recursos que deixaram de circular nesses últimos dez dias. A arrecadação de impostos caiu R$ 5 bi no período. As atividades industriais foram reduzidas gradativamente e chegaram a 60% da sua capacidade. Embora o setor não tenha a soma feita, o prejuízo deve estar na casa da dezena de bilhões. A agricultura perdeu R$ 6,6 bilhões; o comércio, em cinco estados apenas, perdeu R$ 3,1 bi; o setor de serviços ainda apresentará a sua conta. O Brasil parou, e o prejuízo é astronômico.

E vem mais por aí. Como a Petrobras não negociou, não foi soltando a pressão da panela aos poucos; afinal, a empresa estava fazendo apenas o que manda o mercado, a explosão ocorreu, e o socorro agora vem na forma de subsídios. Os caminhoneiros ganharam tudo o que pediram, de uma vez só. A pergunta é quem arcará com o custo de mais de R$ 13 bilhões? Ora, a conta sairá do Tesouro Nacional, explicou o ministro da Fazenda, Eduardo Guardia. E o que é o Tesouro, caro leitor? O Tesouro somos nós.

Foi Margaret Thatcher quem disse que não existe essa coisa chamada dinheiro público, o que existe é dinheiro arrecadado do bolso dos contribuintes. O Estado não tem nenhuma fonte de dinheiro, a não ser a dos cidadãos. O dinheiro que paga as contas do governo não é do Tesouro, é seu e é meu. Ele apenas é guardado pelo Tesouro para, teoricamente, ser aplicado na melhoria das condições de vida de todos os contribuintes. O dinheiro dos caminhoneiros sairá do Tesouro, nosso bolso, e será depois recomposto por mais impostos, nosso bolso de novo.

O governo, por sua vez, também esperou a explosão para agir. E pagou mais caro na redução de imposto sobre o diesel, na flexibilização do pedágio e com a criação de uma política de preços mínimos para fretes. Acuado, também não soube aplicar o rigor da lei e usar da força quando era flagrante a sua necessidade, como no momento em que a greve foi tomada por “infiltrados”. O ano está perdido, sucumbiu pela eficiente incompetência do governo federal e seu braço petrolífero. Os números do PIB do segundo semestre mostrarão o tamanho do buraco. Mas, tudo bem, temos o Tesouro para pagar a conta. Ascânio Seleme é jornalista de O Globo