Três textos de Josias de Souza

 

Em dois meses, a prisão de Lula caiu na rotina

 

*Josias de Souza-do Uol

 

Ninguém notou, exceto os devotos. Mas fez aniversário de dois meses a estreia de um espetáculo novo na política brasileira: a prisão de Lula. No início, houve sacolejos e estardalhaço. Mas a cana do líder político mais popular desde Getúlio Vargas caiu na rotina. Nada mais saudável. Consolida-se no Brasil uma prática civilizatória. O Estado passou a investigar, punir e encarcerar personagens da oligarquia política que se comportavam como se estivessem acima da lei.

Imaginou-se que Lula não seria condenado. Sergio Moro condenou. Duvidava-se que o TRF-4 fosse confirmar a sentença. O tribunal elevou a pena. Apostava-se que o STJ ou o STF dariam um jeito de evitar o encerceramento. E nada. A Lava Jato saiu invicta. Sem nenhum tremor popular ou convulsão social, a lei vai sendo cumprida.

Lula se diz perseguido. O PT o chama de preso político. Mas também estão na cadeia estrelas do MDB, como Eduardo Cunha e Geddel Vieira Lima. Acaba de ser preso o tucano Eduardo Azeredo. Quem não foi passado na tranca aguarda na fila. Michel Temer é virado do avesso pela Polícia Federal. Aécio Neves é empurrado para fora das urnas por nove inquéritos criminais. Antes, os oligarcas perguntavam: “Onde é que isso vai parar?” Hoje, a plateia cobra: “Quando serão presos os outros?” O problema não foi resolvido. Longe disso. Mas ficou mais arriscado praticar corrupção no Brasil.


Preso, Lula surge ‘livre’ em jingle de campanha

 

*Josias de Souza-do Uol

 

Faltam à candidatura presidencial de Lula duas coisas indispensáveis: a chave da prisão e uma ficha limpa. Mas o PT se apressa em prover os assessórios. O hipotético candidato já dispõe de jingle. Será exibido no ato partidário que formalizará sua pré-candidatura nesta sexta-feira, em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte.

O clipe utiliza imagens captadas nas caravanas estreladas por Lula antes de ser preso. Reproduz trechos do discurso feito por ele defronte do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, antes de se entregara à Polícia Federal.


Em nova carta, Lula reafirmará sua ‘candidatura’

 

*Josias de Souza-do Uol

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Nesta quinta-feira, 7 de junho, dia em que sua prisão faz aniversário de dois meses, Lula redigiu, com o auxílio de um de seus advogados, uma nova carta. Nela, o preso reafirma sua pretensão de disputar a Presidência da República. A mensagem será lida nesta sexta-feira num ato partidário de lançamento da pré-candidatura de Lula, em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte.

O ex-governador petista da Bahia Jaques Wagner esteve com Lula. Disse ter ouvido dele a afirmação de que só não disputará o Planalto em três hipóteses: “Se morrer, se apresentarem a prova de que cometeu crime ou se tiverem a desfaçatez de rasgar definitivamente a Constituição brasileira.”

Empunhando um megafone, Wagner disse aos militantes acampados nos arredores da superintendência curitibana da Polícia Federal: “Ele espera que Deus ilumine algumas cabeças do Judiciário, de tal forma que eles não caminhem contra a vontade popular.”

O governador petista do Piauí, Wellington Dias, que visitou Lula junto com Wagner, declarou: “Em 15 de agosto, vamos registrar o nome de Lula como candidato a presidente. E não é só um registro por registrar. Acreditamos que, com base na lei e na Constituição, o presidente Lula preserva os seus direitos políticos. Ele é elegível.”

Reza a Lei da Ficha Limpa que uma pessoa condenada em decisão colegiada do Judiciário torna-se inelegível. Lula virou ficha-suja quando o TRF-4, tribunal de segunda instância, confirmou sua condenação no caso do tríplex no Guarujá, fixando a pena em 12 anos e 1 mês de cadeia.

Nada impede que o PT solicite o registro da candidatura de Lula no Tribunal Superior Eleitoral. Mas o pedido deve ser negado. Alheio ao risco, o petismo acorrenta seu projeto político à conveniência penal do grande líder. Até o mês passado, havia no partido quem defendesse o encaminhamento de um Plano B.

O próprio Jaques Wagner esboçava a defesa de uma aliança do PT com o presidenciável Ciro Gomes (PDT). Enquadrado por Lula, de quem foi ministro, Wagner aderiu ao coro majoritário: “Não existe plano A, B, C, Z ou Y. Apenas o plano L de Lula candidato e Lula presidente.”