Fazendo beicinho

Num discurso que proferiu na Assembléia Legislativa há dois dias em que denunciou a veiculação de matérias que considera plantadas em jornais e portais sobre a formação de uma chapa única de oposição, em que políticos governistas deixariam o governo e se uniriam aos oposicionistas, o deputado Robert Rios afirmou que até hoje nunca viu político deixar governo e ir para a oposição. Para ele, a lógica é o político deixar a oposição e ir para o governo, nunca o contrário.

A observação de Rios é correta na medida em que, hoje, todo político ou parlamentar quer estar no governo, principalmente aqueles que se elegeram mas não ganharam a disputa para chegar ao poder. Em 2014, partidos como MDB e PDT, eram governo mas perderam a eleição e hoje estão aliados ao PT e fechados para a eleição de outubro. Apesar disso, pipocam em colunas de jornais e blogs informações de que partidos da base podem desembarcar do governo e fechar com a oposição.

Como o próprio Robert afirmou em seu discurso de terça-feira (17), essas têm todas as características de matérias plantadas, algumas até produzidas pelas próprias fontes, como é o caso do ex-deputado e líder do PDT no Piauí, Flávio Nogueira. Numa dessas matérias, atribuídas a ele, o ex-deputado diz que se seu partido não for contemplado com uma das vagas no senado, pode romper e ir para oposição. Outras matérias citam o PSD como um partido à beira do descontentamento se Júlio César for desprezado.

O que chama a atenção no conteúdo é a completa a ausência de lógica quando condicionam a permanência deles na base à indicação do líder do partido a uma vaga na chapa. Coisa de amador, profissional ingênuo ou alguém bonificado para repercutir o que foi passado. Talvez se o governador Wellington Dias viesse a dificultar ou esvaziar algum órgão que esses partidos controlassem ou mesmo deixar de realizar uma obra ou contrariar interesses, haveria motivo para romper.

Robert Rios não seria ingênuo de proferir um discurso, sabendo, por experiência própria, que essa forma de conduta tem por propósito “forçar” a barra, ele bem sabe que nenhum partido deixará o governo porque não figurou na chapa majoritária. Nem mesmo o PP, que praticamente já perdeu a indicação da vaga de vice-governador, terá coragem para romper. Por várias razões mas a principal delas é a de que, se fizer isso, o senador Ciro Nogueira viverá o seu segundo papel de traidor do PT.

O mesmo servirá tanto para o PDT quanto para o PSD, principalmente este último, que tem no deputado Georgiano Neto, filho do deputado Júlio César, a principal figura de representação do partido no governo. Hoje, é ele quem encaminha as principais reivindicações do PSD junto ao Palácio de Karnak e nas secretarias estaduais. O PDT de Flávio Nogueira também está aquinhoado. Razões para romper? Nenhuma. Se decidir sair do governo, o que é difícil, pode ser por outro motivo, menos esse. Portanto, essa ameaça de deixar a base não passa de beicinho.