Incongruências históricas marcam filme sobre o Rei

‘Pelé: o Nascimento de uma lenda’ tropeça em uma sucessão de equívocos

Como se não bastasse a farta quantidade de clichês e estereótipos, comuns nas histórias sobre jogadores de futebol que vão da infância difícil ao estrelato, o filme “Pelé — O Nascimento de uma lenda”, de Jeffrey Zimbalist e Michael Zimbalist, tropeça numa série de outros equívocos. Alguns deles, graves incongruências históricas, que permeiam a narrativa da trajetória do maior jogador de futebol da história com episódios inverossímeis. A ponto de se tornar difícil separar o que é documentação histórica e o que é ficção. O lançamento nacional será na próxima quinta-feira.

Basta uma cena para o pontapé inicial do estranhamento: Pelé, ou Dico, como era chamado na infância, conversa com o pai e com os amigos de Bauru em inglês. Produção voltada para o mercado global, não teve a preocupação de manter a língua natal do personagem e até dos atores, como Seu Jorge, que faz o papel de Dondinho, o pai do Atleta do Século.

E é Dondinho o personagem principal de outro equívoco imperdoável: numa birosca de uma área pobre da cidade do interior paulista, vê as façanhas do filho na Copa do Mundo de 1958 pela TV. Ocorre que a transmissão de TV daquele Mundial alcançou não mais do que onze países europeus. Ao Brasil, os relatos chegavam pelo rádio. Anos depois, a TV Tupi adquiriu os kinescópios do Mundial, mais tarde transformados em videotape das partidas.

Nem a convocação da seleção para a Copa da Suécia escapou ilesa. Um certo “Dico Nascimento” é convocado junto a Gilmar, Nílton Santos, Didi, Vavá e outros. Ao contrário do que conta o filme, Pelé não virou Pelé na Suécia. Todos os jornais já o tratavam pelo apelido que o tornaria eterno desde 1957. O curioso é que, nos créditos, consta que o produtor executivo é... Pelé.

O filme trata a tentativa de ascensão de Dico, posteriormente Pelé, através da busca por impor um jeito brasileiro de jogar, que o filme define como “ginga”. A trama sustenta que, desde a derrota da Copa de 1950, o Brasil buscava um jogo sistematizado, organizado, de inspiração europeia. A discussão até houve — e vez por outra, ressurge —, mas a narrativa estabelece tamanha polarização, cria duas realidades que, de tão radicalizadas, terminam por ser retratadas através de episódios artificiais. De um lado, um jogo “primitivo”, o de Pelé; de outro, o “civilizado”.

Um exemplo é a semifinal da Copa de 1958, contra a França. O Pelé do primeiro tempo tenta obedecer ao sistema do técnico Vicente Feola e é tratado como um fracasso até ali. Lembrete: na vida real, àquela altura, ele já decidira o jogo com País de Gales e era acompanhado com interesse pelo mundo do futebol. Vem o segundo tempo e Pelé decide usar a tal “ginga”. A palavra é usada à exaustão, como síntese de habilidade, improviso, astúcia e toda a gama de talentos lúdicos adquiridos por um jogador nos campos de rua. Vira um símbolo de brasilidade, herança da resistência dos negros escravos.

Mas chega-se ao ponto de tratar a “ginga” como um botão de superpoderes. Ao decidir usá-la no segundo tempo do jogo com os franceses, Pelé passa a protagonizar uma sequência de malabarismos, uma coreografia de dribles e piruetas que nunca ocorreram e que, quase por regra, não ocorrem num campo de futebol. Como se houvesse um jogo só dele. O que Pelé fez, de fato, já foi genial o bastante. As cenas de lances de partidas repetem o pecado habitual da dramatização de jogos de futebol: fazer do herói um produtor de feitos surreais. Como se a antologia de realizações do maior jogador da história não fosse suficiente.

Às vésperas da decisão da Copa, surge um Pelé convencido a inspirar toda a seleção a adotar a “ginga”. O garoto inicia uma série de malabarismos entre as mesas do café da manhã dos jogadores no hotel, em plena véspera da final. Contagiado, o time o acompanha e repete uma cena que lembra comerciais de TV de Ronaldinho Gaúcho: sem deixar a bola cair, a seleção anarquiza o hotel num exercício de altinho, chega a derrubar comida na cozinha, atravessa o saguão do hotel até Pelé cair num lago. Se ocorreu, o episódio nunca foi relatado por qualquer jogador da seleção.

Vanguarda não reconhecida

E o que faz Feola diante da balbúrdia horas antes do jogo mais importante da vida daqueles atletas? Após uma cena que ridiculariza seus sistemas de jogo, aparece um treinador decidido a liberar seus craques a adotarem a “ginga” na final com os suecos. Um dado histórico: aquela seleção tem lugar nas melhores obras sobre evolução tática não apenas pela genialidade dos jogadores, mas pelo sistema de jogo, um 4-2-4 que fez do Brasil vanguarda no mundo. A seleção nunca foi uma anarquia.

Tudo tão infantil quanto a transformação de José Altafini, o Mazzola, de vilão em bom moço. Do garoto rico, que humilhava o menino Dico enquanto este ajudava a mãe a limpar o chão da cozinha da família abastada, ao jogador europeizado que, após perder lugar no time para o craque, termina por se render à “ginga”.

Pelé merecia mais.

 

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